O texto em foco constitui-se como um dos mais intrigantes do Antigo Testamento, e, por decorrência, suscitam de sua apreciação algumas inevitáveis inquirições, entre as quais a supramencionada. O contexto imediato de Êx 4.24 nos mostra que Moisés, conforme Êx 4.20, toma sua esposa e filhos e os faz montar sobre um jumento e empreende viagem rumo ao Egito. Como de costume, entre os antigos viajantes, Moisés e sua família pernoitam em um local estabelecido para esse fim, junto às fontes de água. Nessa hospedaria registra-se a ocorrência de um conjunto de ações divinas e humanas dignas de compreensão.
A perícope de Êx 4. 24-26.
         Esse relato bíblico abriga em seu conteúdo algumas relevantes dificuldades textuais, a partir das quais surgem alguns questionamentos fundamentais para a compreensão dessa perícope. A seguir, me atenho a duas dessas interrogações: 1 – A quem alude o pronome “o”? 2 – Aos pés de quem lança Zípora?
A ambigüidade do pronome “o”
   O pronome se refere a Moisés ou ao filho? Entendendo que a alusão seja ao filho, então surge a pergunta: “A referência é a Gérson – Êx 2.22 ou a Eliézer – 18.4?” Em resposta a essas questões, entendo que, apesar do contexto da morte dos primogênitos parecer produzir uma ligação com a idéia do filho de Zípora, a alusão é mesmo a Moisés. Embora o texto hebraico deixe oculta a identidade da pessoa, a ARA com propriedade, em minha opinião – visto as causas da ação de Deus – substitui o pronome “o” por “Moisés”.
Lançou aos seus pés
         O texto hebraico omite a identificação de a quem Zípora se dirige, de modo que a referência possa ser ao filho, a Moisés, ou mesmo ao agressor. Pelo fato da circuncisão ter sido realizada no filho, bem como pela expressão em apreço se tratar de um eufemismo para órgãos genitais, penso que Zípora tenha se dirigido a Moisés. Assim sendo, entende-se que a mulher de Moisés tomou sua faca de sílex– Js 5. 2,3, pedra comum no deserto, e circuncidou o menino e com essa pele tocou em seu marido. Há quem julgue que Moisés foi alvo dessa ação de Zípora por ele não ter sido circuncidado, mas, particularmente, julgo essa hipótese improvável pela razão da circuncisão ser um rito de prática comum tanto no Egito, como no lar israelita onde ele foi criado. 
Por que Deus quis matar Moisés?
Por que o Deus que acaba de chamar Moisés e lhe expressar a garantia de vida no Egito - Ê    x 4.19, agora o deseja matar? Fica-nos evidente que Moisés sofre um golpe divino, possivelmente tenha sido acometido de uma gravíssima doença, por não ter circuncidado seu filho. Compreendo que o filho aqui circuncidado seja Eliézer, haja vista que Gérson já era um homem formado nessa época, pois havia nascido há quase 40 anos, de acordo com Êx 2.22.
         A circuncisão para além de um ato higiênico e de prática comum no médio-oriente antigo, em Israel ela tratava-se de um sinal da aliança estabelecida entre Deus e Abraão – Gn 17. 12-14. No caso de Moisés, o mais importante não era propriamente a natureza do ato, mas sim o significado dele, pois agora em um papel de mediador da aliança, ele precisa antes cumpri-la. Deus almeja com essa ocorrência conduzir Moisés à plena obediência e à dedicação absoluta, a fim de fazê-lo compreender a superior intenção divina com a circuncisão – Dt 30.6, algo plenamente corroborado pelos ensinos neotestamentários – Rm 2.29.